Cris.dk

 

 

Contos

Aqui eu descrevo algumas loucuras que aconteceram comigo. Várias vezes quando comentei com amigos sobre esses acontecimentos inusitados da minha vida, ouvi que eu deveria escrever um livro. Quem sabe um dia, um pequeno livro de contos. Mas enquanto eu não penso mais seriamente nesse assunto, escrevo aqui. Todos os contos são verídicos e sem exageros!

Coincidências Sabe tudo Conto do cão
1988 O meu nome é Valdemar Modelo
Moradia Um gringo e 16 anos  

 


Coincidências

Meus primeiros 4 anos aqui na Dinamarca foram muito solitários. Antes de me mudar para cá eu nunca tive problemas para fazer amizades. Nem mesmo em Curitiba, onde o povo é mais fechadão. Eu sempre fiz amizades com facilidade. E eu achava que boas amizades surgiam entre pessoas com algum interesse em comum, com a mesma cultura e idéias, e pessoas que utilizam um mesmo tipo de comunicação.

Então cheguei aqui na escandinávia e descobri que há um fator muito mais importante no processo de amizade. Idioma. As duas pessoas devem falar o mesmo idioma fluentemente. Não tem como ter amizade com um dinamarquês, quando você não entende o que a pessoa está falando. É frustrante para ambas as partes ter que repetir e explicar constantemente o diálogo. Isso não é amizade.

Então eu sempre ficava muito satisfeita quando encontrava alguma brasileira. Eu estava louca para ter uma boa amiga. Encontrei várias brasileiras na escola de dinamarquês, gente de todos os cantos do Brasil, porém as amizades não vingaram. Não tínhamos nada em comum, nem a mesma cultura. Realmente, o nosso Brasil é enorme e multi-cultural, e esse pessoal que eu conheci aqui, provenientes do Sudeste e Nordeste brasileiros, não se encaixaram no meu perfil de pessoa. De alguns tipos de brasileiros eu queria até mesmo distância. Então me fechei, e quando escutava alguém falando português, eu já me afastava. Como diz o ditado: Antes só do que mal acompanhada.

Foram quatro anos difíceis. Sem amizade nenhuma, sem família, sem reconhecimento do meu curso universitário, sem emprego decente e sofrendo os preconceitos de uma sociedade xenofóbica.

Até que um dia, na cantina da empresa onde eu trabalhava, começou a aparecer um bocado de gente diferente. O prédio da produção estava sob remodelagem e os funcionários que comiam na cantina interna da fábrica, passaram a comer então na minha cantina. E foi nesse período que eu vi uma jaqueta esportiva dizendo: BRASIL. A moça estava de costas para mim, mas cabelinho crespo e castanho, só poderia ser da terrinha.

Armada somente com a minha cara-de-pau, fui confirmar. Já cheguei falando em português:

– Você é brasileira?
– Eu sou.

Nisso se senta um rapaz novinho do outro lado da mesa e diz assim:
- Eu também!

Eu me sentei por uns minutos ali com eles para conversar um pouco e trocar endereço de email. Descobri que a moça já morava aqui fazia anos, mas o rapaz trabalharia na fábrica que a empresa abriria no Brasil e ele estava aqui em treinamento.

O sotaque dele era muito familiar. Quando eu morava em Sampa, eu conversava com um rapaz do interior de São Paulo que tinha um sotaque igualzinho. Ali na cantina, conversando com o ‘Eu também', era como se eu estivesse conversando com aquele meu conhecido. Então perguntei:

– Vocês são de onde?
A moça respondeu que era de Minas e o rapaz, do interior de São Paulo.
– De São José do Rio Preto? Eu perguntei.
– Meu Deus, como você adivinhou? Tantas cidades no interior de São Paulo. Poderia ter dito Ribeirão Preto, Sorocaba, Presidente Prudente. Acertou de primeira!

Eu e ele nos tornamos amigos e fizemos vários passeios juntos. A primeira vez que eu esquiei na neve na minha vida, foi devido a um passeio com ele. Aliás, só ele para me convencer a tomar um ônibus às 6 da manhã e viajar por 4 horas para ir a uma montanha na Suécia e aprender a esquiar na neve.

E foi esse rapaz que mudou a minha vida. Todas as amizades que eu tenho hoje na Dinamarca, eu devo ao fato de que ele escutou uma moça falando português na estação do trem.

Lembro ele disse: Aquela moça ali é brasileira. Ela está falando português no telefone. Espichei o ouvido, e ela começou a falar com o marido que estava ao seu lado, mas foi em dinamarquês. Era uma moça de cabelo preto liso e pele bem alva. Nem parecia ser brasileira. Mas de repente ela volta a falar no telefone, em português!

Fomos puxar papo e nos sentamos todos juntos no vagão. Conversa vai, conversa vem, descobri que ela era nascida na Dina mas tinha morado no Brasil a vida toda, e em Curitiba (assim como eu)! Gente finíssima. Conversamos um monte durante os vinte minutos do trajeto e trocamos números de telefone.

Como todo bom curitibano, o processo de avaliação de uma possível nova amizade se dá em um local público. Ela me convidou para fazer um passeio e tomar um lanche no shopping. E a nossa conversa estava tão boa, que no caminho para casa, ela pegou até o trem para me acompanhar até Copenhague e conversar mais um pouco. No entanto ela morava ali mesmo, e não precisava pegar trem algum.

Fui então convidada para a festa de aniverário dela e foi nessa ocasião que conheci mais 4 meninas. A maioria também de Curitiba, sendo que uma delas tinha morado tanto em Paranaguá quanto em Santos (as duas cidades onde eu passei minha infância). Meses depois conhecemos uma quinta moça, que vinha do Canadá mas que tinha passado a infância em Paranaguá! Esse mundo é realmente muito pequeno.

Esses eventos mudaram a minha vida. Agora eu tenho muito boas amigas e tudo começou com a visão de uma jaqueta e uma adivinhação baseada num sotaque. A vida pode mesmo ser surpreendente.

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Sabe tudo

Quando estava morando em São Paulo e transferi a faculdade, eu fui obrigada a fazer alguns cursos extra que faziam parte do currículo da nova faculdade. Coisas como inglês técnico, espanol técnico e informática farmacêutica. Esses cursos não existiam no curso de farmácia de Curitiba.

A faculdade em SP foi bem flexível. Inglês e informática o pessoal tinha estudado no segundo ano do curso, e eu teria que fazer a adaptação participando de aulas com o povo do segundo ano. Mas como os horários coincidiam com as minhas aulas normais, a faculdade deixou eu escolher outro horário de noite, junto com a turma de um outro curso qualquer, que não era farmácia. Eu precisava de uma carga horária de 36 horas, e o curso com o pessoal da noite era de 72 horas. Não tinha importância. Eu podia fazer horas a mais, mas não a menos.

Já no primeiro dia de aula me decepcionei. Era para ser inglês técnico, mas o pessoal na sala não sabia nem o básico do básico como o verbo ‘to be'. Então o professor, que era canadense, estava ensinando o bê-a-bá. Um tédio para mim e verdadeira perda de tempo. Mas eu precisava da carga horária e nota nas provas para me formar. E por isso eu era obrigada a sentar lá por duas horas, uma vez por semana.

Eu acho que o que mais me irritava era o fato de que o pessoal não sabia coisa nenhuma de inglês, o professor estava sendo bem didático e paciente, e mesmo assim a turma não ficava quieta para prestar atenção. As conversinhas laterais eram tantas, que eu não conseguia nem me concentrar nos meus próprios pensamentos.

Na terceira semana o desinteresse da turma e barulho era tamanho que o professor não aguentou e soltou uma daqueles desabafos: ‘Quem sabe tudo e não está interessado nessa aula pode ir embora. Eu dou presença. Venha só fazer a prova.'

O repentino silêncio era ensurdecedor.

Então ele virou novamente para o quadro, e eu numa reação de impulso catei todas as minhas coisas e parei em frente a mesa dele. Ele olha para mim e diz: ‘Pois não?' como se não soubesse o que estava acontecendo.

- Você disse que quem já soubesse tudo e quisesse só vir para as provas, que você daria presença.

A expressão no rosto dele parecia uma daquelas propagandas de Mastercard. Ele não acreditava que aquilo estava acontecendo. Mas ele tinha prometido, agora tinha que cumprir.

Ele me passou as datas das duas provas e me deu presença em todas as aulas.

Reconheço que foi loucura minha. Pois eu não fazia idéia de qual matéria cairia na prova, já que ele estava ensinando coisas fora do conteúdo programático. Mas como combinado eu só apareci para fazer as duas provas. E não me arrependo. Economizei 60 horas de puro tédio.

Minha média final foi 10. E isso me deixou muitíssimo contente. Os dois únicos 10 que eu tenho no meu histórico são em bioquímica clínica e inglês técnico.

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Conto do cão

Naquela época eu trabalhava para a vigilância sanitária de São Paulo e estacionava James (meu carro), no pátio da secretaria de saúde. Aquele estacionamento estava sempre cheio de gatos. Lembro-me de uma vez em que dei uma carona para Talita, uma colega de trabalho, e no caminho para casa ouvimos um barulho estranho vindo da frente do carro. Talita me assustou dizendo que tinha gato dentro do capô. Fiquei com aquilo na cabeça.

No final daquela semana, peguei James e depois de algumas quadras percebi que ele estava prestes a ferver. Parei, esperei o motor esfriar um pouco e segui viagem. Repeti esse procedimento por várias vezes até que finalmente achei um posto de gasolina. Ali, depois de muito quebrar a cabeça para descobrir a origem do problema, os meninos do posto viram que a correia do ventilador tinha saído do lugar. Não sei porque, mas quando vi a correia caída, pensei no que Talita tinha dito: Que tinha gato no capô do carro. Fiquei então com pensamento fixo de gato dentro do capô!

Até que uns dias mais tarde o inacreditável aconteceu.

Numa sexta-feira, tinha caído um verdadeiro toró. Quando cheguei para buscar James, os gatos todos estavam rodeando o carro. Desconfiada, resolvi abrir o capô e tomei um susto. Dentro do carro não tinha gato, mas um cachorrinho! Filhote, pretinho e com uma coleira que mais parecia colar de boneca Barbie.

Coloquei o bichinho no chão e fiquei me perguntando como ele conseguiu entrar ali? Olhando os vãos entre as partes do carro, supus que ele, talvez com medo dos gatos ou dos trovões, fez aquela escalada até o topo e depois não conseguiu descer.

Peguei o cachorro no colo e entrei no prédio para perguntar se ele pertencia a alguém dali. Dentro do prédio, segurando o cão e olhando para a escadaria, tive um Déjà vu. Sabe aquela sensação de que aquela cena já tinha acontecido antes? Mas definitivamente, na minha vida eu nunca eu tinha achado um cachorro dentro do capô do carro, e honestamente, duvido que isso tenha acontecido com muitas outras pessoas na face dessa terra!

Já estava tarde e funcionário público vai embora cedo. Não encontrei ninguém no prédio. De volta ao estacionamento, coloquei o bichinho no chão e fui para o carro. Eu ia deixá-lo ali, mas para onde eu andava, ele me seguia. Fiquei com pena e resolvi trazê-lo comigo. Na saída do estacionamento mostrei o cãozinho no meu colo para o segurança e perguntei se ele sabia quem era o dono do animal. Ele não sabia. Contei o acontecido de forma sucinta, e ele riu. Decerto achou que eu era louca.

Meus planos eram de ir ao supermercado e depois limpar o apartamento, pois Luciane, uma boa amiga de Curitiba, vinha me visitar.

Com cachorro não há condições de ir ao supermercado. Fui então direto para casa. Lá, imaginei que o bichinho estava com fome, mas tanto a geladeira quanto os armários estavam vazios. (Por acaso eu mencionei que meus planos eram de ir ao supermercado?)

Na geladeira ainda tinha leite e fiz a burrada de dar um pouquinho para ele. Pouco tempo depois ele fez cocozinho molenga e esverdeado. Não sei se tem relação. Então preparei um pouco de arroz e comemos nós dois.

Arrumei uma camiseta velha para ele deitar em cima e depois telefonei para minha mãe para contar da história, e também para saber se eu poderia levar o cachorro para ela no dia seguinte. Ela disse: “Sem problemas”.

Com a consciência tranqüila, comecei a fazer a limpeza. Mas claro que eu não poderia fazer a coisa de uma maneira fácil. Olha a complicação:

Toda essa aventura do cachorro aconteceu no final de fevereiro de 2001. Um pouco antes, em dezembro de 2000, o Carsten estava me visitando, e porque duas amigas iriam passar o final de semana conosco no apartamento, tínhamos que fazer uma pequena limpeza. Mas como eu já tinha limpado tudo antes do Carsten chegar, o que fiz foi varrer um pouco o chão e dar uma ajeitada geral.

Depois da varredura, Carsten me diz que para limpar bem eu deveria “wash the floor”. OK, traduzindo na minha cabecinha: lavar o chão. Mas lavar para mim significa com balde, muita água e sabão. Porém para ele, "wash the floor" significava passar um pano úmido (mas isso eu só descobri meses depois, quando me mudei para a Dinamarca!).

Voltando àquela noite com o cachorro: Porque eu queria que a casa estivesse bem limpinha para quando Luciane chegasse, eu resolvi lavar o chão, com muita água e sabão!

Demorou uma eternidade e o cachorro me seguia para todo o canto. E pior, onde eu já tinha limpado, ele fazia o cocozinho verdolengo dele para me levar à loucura. Eram duas horas da manhã, eu ainda não tinha terminado, estava um bagaço de cansada e às 7 horas eu tinha que buscar Luciane no aeroporto.

Apaguei as luzes, deitei no sofá da sala mesmo e assim que eu me deitava confortavelmente o cachorro começava a choradeira. Meio da madrugada, choro alto de cachorro, fiquei com medo de acordar os vizinhos - e eu nem sabia se era permitido ter animais no prédio. Lá ia eu apaziguar o bicho. Por várias vezes, das duas até as seis da manhã, eu acordei com o choro do cachorro.

Seis horas, recomecei a arrumação do apartamento, já estressada, pois tinha que sair 6:30 para chegar a tempo no aeroporto.

Quando finalmente saí do banho, já eram quase sete horas e para “variar”, eu estava atrasada. O que me matava não era estar atrasada, mas eu estava atrasada para buscar Luciane. Da última vez em que ela esteve em Sampa me visitando, ela veio com uma amiga, e ambas chegaram de ônibus. Eu fiquei de buscá-las no meio da tarde no terminal do Tietê e de lá iríamos direto para uma exposição no Center Norte Expo. E do meu trabalho até a rodoviária naquela horário não tinha muito trânsito. Demoraria apenas uns vinte minutos para chegar lá.

Meia hora antes da hora prevista para o ônibus chegar, eu disse tchau para o povo do trabalho e contei que iria na exposição. Uma colega disse que tinha ganhado bilhetes de entrada para essa exposição e perguntou se eu não poderia dar uma carona para ela até lá e ela então me daria uma das entradas. Mas tínhamos primeiro que passar na casa dela para buscar os bilhetes. Eu disse que não queria me atrasar e ela respondeu que eu não me atrasaria, porque ela morava a cinco minutos dali. Então eu, e essa minha mania de querer ajudar a todos, disse OK. (Burrada, e burrada das grandes!)

Eis que os cinco minutos dela se transformaram nuns 15 e em direção oposta àquela em que eu deveria ir para chegar até a rodoviária. Quando ela desceu do carro para buscar os benditos, eu já estava com raiva porque estava atrasada. Tive a impressão que ela demorou um século dentro da casa. Quando ela finalmente volta para o carro, de olhos inchados, ela disse que tinha acontecido algo sério com um familiar e que não poderia ir comigo, mas que eu ficasse com as entradas.

Como eu não conhecia a região, ela me explicou como voltar e foi para dentro de casa. Só que a explicação dela não foi boa e eu não conseguia achar o caminho de volta. Como não tinha mapa no carro, fui obrigada a fazer uma volta enorme até achar um caminho que eu conhecesse. Chegando na avenida principal, o trânsito estava um verdadeiro inferno e eu não tinha telefone celular para ligar e dizer para Luciane que: 1- eu estava longe pra dedéu e 2-demoraria uma eternidade para chegar na rodoviária.

Cheguei no terminal do Tietê com mais de duas horas de atraso. Luciane e sua amiga ainda estavam lá me esperando, as coitadas, e já tinham telefonado para a minha mãe, que claro, não sabia onde eu estava e ficou preocupada.

Eu, com muita vergonha por estar tão atrasada, e pior, porque quando eu morava em Curitiba eu chegava atrasada para absolutamente tudo, não sabia nem o que dizer, pois tudo pareceria uma mentira enorme.

Mas de volta ao sábado de manhã, quando eu tinha que buscar Luciane no aeroporto...

Quando finalmente saí de casa já tinha passado das sete horas. Dirigindo como uma maníaca, cheguei no aeroporto com 40 minutos de atraso, e segurando o cachorro no colo, entrei no saguão de desembarque onde Luciane já estava me esperando. E eu estava torcendo para que o vôo tivesse atrasado ou que as bagagens tivessem demorado a sair, mas não, ela estava me esperando fazia meia hora.

Então ela olha para o cachorro no meu colo e começa a rir!

De lá fomos direto para a loja da minha mãe e no caminho eu contei (com detalhes) a aventura de encontrar o pretinho dentro do capô.

Eu e Luciane tivemos um final de semana ótimo. Passeamos no parque Ibirapuera e fizemos aquela programação típica de paulista: Ir para o shopping!

O cachorro?

Minha mãe disse que colocou na loja uma placa: Doa-se cachorrinho. Uma moça o levou para casa, mas depois de algumas horas ela voltou e o devolveu, porque achava que ele estava doente. Mas logo depois outra moça, que estava esperando o ônibus no ponto em frente à loja, pegou o bichinho, entrou no lotação e foi-se embora com o cachorro.

Mesmo adorando cachorro do jeito que eu adoro, eu não poderia ter ficado com ele. Uma, porque eu trabalhava o dia inteiro e não teria tempo para cuidar do cachorro, mas o motivo principal era que dias depois dessa aventura toda, eu já tinha outra aventura marcada no calendário: Eu estava de passagem marcada para viajar para a Dinamarca, onde eu passaria três semanas com o Carsten para conhecê-lo melhor e encontrar a família dele – e o resto dessa história vocês conhecem!

Notas: Depois desse acontecimento eu checava o capô do carro toda vez que estacionava lá na secretaria de saúde, e confesso que ficava decepcionada quando via que não tinha mais nenhum cachorrinho dentro do capô!

Essa aventura aconteceu comigo em 2001. Nove anos depois, em 2010, eu estava lendo algumas notícias um tanto extravagantes no G1.globo.com - Planeta Bizarro, e lá vi várias notícias sobre gatos que foram achados dentro de capô de carros e que tinham sobrevivido ao calor do motor ligado. Agora, notícia de cachorro no capô, essa eu ainda estou para achar!

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1988

Nós estávamos dormindo. O despertador sempre me acordava às seis da manhã. Pouco antes dele tocar algo nos acordou. Dona Lurdes, a cozinheira do nosso restaurante, que estava dormindo no meu quarto naquela noite, disse: “Deve ser gato”. Continuamos dormindo.

Quando o despertador tocou eu me levantei, destranquei a porta do quarto e assim que a abri eles taparam minha boca e disseram para não gritar.

Estavam todos mascarados e armados com pistolas. As máscaras pareciam ser feitas de meia-calça.

Eles me colocaram sentada na cama de D. Lurdes e começaram as perguntas. “Quantas pessoas estão na casa? Onde estão dormindo? Quantas pessoas estão no quarto?” E assim foi.

Lembro vividamente de uma pergunta que me fizeram: “Essa é a sua mãe?” Estavam se referindo a D. Lurdes.

“Não. Minha mãe mora em São Paulo.”
“Não minta pra mim. Essa é a sua mãe?”
“Minha mãe mora em São Paulo. Essa é Dona Lurdes, nossa cozinheira.”

Lembro que perguntei para aquele que me fazia as perguntas por que ele estava chorando. Parecia por debaixo da máscara que algo refletia luz, como uma lágrima. Não me lembro da resposta no entanto.

Eu precisava ir ao banheiro e perguntei se eu poderia fazer xixi. Eles me levaram ao banheiro, deixaram que eu fosse sozinha. A porta ficou entreaberta. Eles me alertaram para não dar uma de engraçadinha. Nervosa, custei a relaxar para fazer o bendito do xixi, mas eles esperaram sem dizer nada. De lá voltamos para o meu quarto. Agora Olímpia também estava no quarto conosco.

Em casa estávamos somente eu, meu avô, nossa empregada, Olímpia (que morava conosco), e a cozinheira do nosso restaurante, Dona Lurdes, que sempre passava a noite comigo quando meus avós estavam viajando.

Os cachorros estavam presos naquela noite, o que permitiu que os ladrões pulassem o muro, mas mesmo assim eles não conseguiram entrar na casa e por isso esperaram até o amanhecer, até que alguém abrisse a porta. O quarto de Olímpia tinha porta tanto para dentro da casa quanto para fora. O barulho que nos acordou em torno das 5:30 eram os berros dela pedindo socorro. Nenhum dos nossos vizinhos acionou a polícia. Os assaltantes mantiveram Olímpia com refém, provavelmente fazendo muitas perguntas, até o momento em que eu abri a porta do meu quarto.

Naquele dia minha avó não estava em casa por causa de uma viagem. Eu morei com meus avós toda minha vida, e aquela foi a única vez que minha avó viajou sozinha e não estava em casa conosco, o que foi muita sorte. Minha avó sempre foi muito nervosa e imagino que se ela estivesse em casa, a reação dela não teria sido favorável. Por mais traumatizante que essa experiência tenha sido, tudo correu bem, sem violência extrema, e tudo acabou bem. Foram-se os anéis, mas ficaram os dedos. Tenho certeza de que tudo acabou bem porque estávamos todos muito calmos durante as 2 horas que os bandidos nos mantiveram como reféns.

Depois do xixi eles começaram a me dar instruções de como bater na porta do quarto do meu avô para acordá-lo. A imagens na minha mente são muito claras. Bati na porta e a abri. Acendi a luz. Meu avô se sentou na cama com ar assustado enquanto dois dos ladrões entraram correndo no quarto apontando as armas para ele.

Dentro da casa eram 3 assaltantes ao todo, embora eles disseram que a casa estava cercada. Duvido. Um deles era nervosinho, que meu avô pareceu reconhecer e por isso o chamou de carioca. "Ô carioca!", disse. Esse fez várias ameaças dizendo que iria atirar e nos matar. E chegava bem perto do meu avô e apontava o revólver de maneira ameaçadora e dizia coisas de maneira bem exaltada.

Então perguntaram onde estava o cofre. Eles estavam atrás de dólares e jóias. Mas na casa só haviam jóias.

Naquela época haviam dois cofres grandes na casa. Um deles bem escondido num fundo falso do guarda-roupa, e um em plena vista dentro do quarto de hóspedes. A porta do quarto de hóspedes estava trancada e meu avô explicou que a minha avó tinha levado a chave do quarto. Se era verdade, não sei. A porta foi arrombada rapidamente e levaram meu avô para lá, para abrir o cofre. Meu avô, já com 63 anos e nervoso, custou a lembrar a senha. Nós, do quarto, pudemos ouvir que eles deram um safanão no meu avô, que disse em alto e bom som: “Porra, não tá vendo que estou nervoso”.

Dentro do quarto onde estávamos eles também acharam dentro do baú algumas jóias de marfim, que minha avó tinha comprado na África. Levaram tudo. Tudo mesmo, porque o cofre no fundo falso era novo e minha avó não tinha tido tempo de colocar as jóias lá antes da viagem. Isso significa que tudo que meus avós tinham comprado de jóias nas viagens pela Europa e África, tudo estava no cofre antigo.

Dentro da terceira câmara do cofre, minha avó tinha guardado 2 jogos de talheres dourados. Só dourados, não de ouro (mas isso eu não sabia no dia). Eles me mandaram abrir as portas da casa, para que eles pudessem ir embora. No corredor, um deles veio segurando a caixa com os talheres dourados e perguntou assim:

“É ouro?”
E eu pensei que ele estivesse fazendo uma afirmação, então com tom de curiosidade e olhando para os talheres eu perguntei: “É?”
“Estou perguntando, porra!”
“Não sei.”

Num momento, tentando fazer com que eles fossem embora o mais rápido possível, meu avô mentiu, dizendo que o ônibus escolar viria me buscar. Então um dos assaltantes, aquele que parecia estar chorando, se agachou na minha altura e me disse: “Quando eles vierem, aí você acena e diz – Hoje eu não vou, não.” Lembro que ele, com o braço esticado, gesticulava com o dedo indicador para lá e para cá: Hoje eu não vou não.

Quando já não havia mais nada para roubar, eles disseram que iriam embora. Tentaram nos trancar no quarto, mas porta era velha e a chave não funcionava do lado de fora. Algo que foi pura sorte. Nos deixaram então no quarto e disseram que se nós os seguíssemos, que eles iriam atirar para matar.

Depois de alguns minutos meu avô foi para a sala, telefonou para a polícia e mandou eu me preparar para ir para a escola. Ele também telefonou para a escola, para dizer porque eu estava chegando somente para o segundo horário.

Quando cheguei na escola, todos da minha classe tinham sido informados e os primeiros 15 minutos da aula eu passei contando a história e respondendo a perguntas, inclusive da professora.

Depois do almoço eu estava de volta em casa e a sensação não era boa. Meu avô disse que não era para ficar com medo da casa. Disse-me também que quando minha avó telefonasse de Santa Catarina, que eu não deveria dizer nada, para não estragar a viagem dela e não deixá-la preocupada. Quando a vó telefonou, ela perguntou se estava tudo bem, e eu disse que sim. Somente quando ela voltou para casa, é que ela soube do acontecido.

Nós descobrimos mais tarde que o assalto tinha sido encomendado por uma pessoa conhecida na cidade e que a polícia também estava envolvida. Por isso nada do roubo foi recuperado.

Meu avô mandou que eu não ficasse com medo da casa, mas toda vez que eu dormia naquela casa, mesmo 20 anos depois desse assalto, eu não ficava em paz lá. Qualquer cricrilar ou estalo na grama era suficiente para fazer o coração palpitar e me tirar o sono.

As atitudes do meu avô após esse assalto foram pra lá de desesperadas:

  • Grades foram instaladas em todas as janelas e uma porta-grade na área de serviço, onde ficava a porta do quarto da empregada.
  • Uma fortuna foi paga para a instalação de um sistema de alarme na casa. Alarme que, diga-se de passagem, só foi usado por um ou dois meses após o assalto.
  • Nós já tínhamos 2 cachorros Pastor Alemão, que estavam presos no canil no dia do assalto, mais um cachorrinho pequeno. Ao invés de deixar os cachorros soltos de noite, o que talvez já fosse suficiente, meu avô, sem brincadeira nem exageros, comprou mais 4 cachorros e construiu mais 2 canis para abrigar os bichos. Mas esses cachorros ficavam presos o tempo todo. Dava até pena. Depois de alguns meses 2 cachorros morreram e outros 2 foram levados para outros lugares. Acho que meu avô reconheceu o erro. Não tem como manter 7 cachorros que brigam entre si numa casa.

Bom, nem preciso dizer que meus avós perderam o entusiasmo por viajar. Foram muito poucas as viagens que eles fizeram depois desse assalto e definitivamente eles pararam de comprar e usar jóias caras em público.

A casa a minha avó vendeu em 2011, o que para mim significa o fim de um ciclo.

1988, eu tinha 10 anos, entretanto as memórias sobrevivem como se tivesse sido ontem.

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O meu nome é Valdemar!

Quem me conhece sabe que eu venho equipada de fábrica com um vozeirão de timbre forte. Acredito que isso é uma questão de fisiologia. Imagine um mulherão de 1,79m de altura, corpaço musculoso e com um andar até um pouco masculinizado. Agora imagina a voz dessa pessoa? Imaginou?

Errou! Essa pessoa que conheço tem uma voz fininha, estridente e irritante. Quando ela abre a boca dá até vontade de sacudí-la e dizer “solta essa voz, mulher!”

Bom, eu não sou tão alta assim mas a minha voz poderia ser de uma mulher de 1,90 de altura. Isso já desde os 14 anos, e quanto mais o tempo passa, mais grave a voz da gente vai ficando. Como quase todos na minha família têm voz forte, nunca tinha me passado pela cabeça que eu passaria por experiências embaraçosas.

Minha primeira experiência foi mais ou menos assim: Eu tinha uns quinze anos e queria entrar em contato com uma menina que tinha achado bacana. Resolvi telefonar mas nesse dia eu estava muito rouca por causa de um resfriado.

- Alô? (voz de mulher)
- Por gentileza, a Fernanda está?
- E quem quer falar?
- É a Cristiane
- Hã, como se eu não soubesse que é um homem que está falando!
- ??? Como?
- Eu sei que é um homem que está falando.
- ??? O meu nome é Cristiane. Posso falar com a Fernanda?
- Olha, se você não disser o seu nome eu não vou chamar.
- Mas o meu nome é Cristiane (a essa altura eu já nem tinha mais voz)
- Por que é que você não quer dizer o seu nome, eu estou escutando que é um homem que está falando
(Eu já morta de raiva mas não queria ser mal-educada)
- Então tá, é Cristiano, dá para chamar a Fernanda?

Lembro que eu fiquei constrangida porque uma pessoa achava que minha voz era de homem e nunca comentei com Fernanda o ocorrido.

Em torno de um ano depois, também num período em que eu estava rouca (leia direito, eu escrevi Rouca!!!) Bianca tinha me convidado para ir a um barzinho. Lá fui apresentada a um casal de amigos dela e conversa vai, conversa vem, eles me pergutaram se eu cantava. Achei estranho, mas eles achavam que a minha voz grave e rouca era o máximo, e tentaram me convencer de que eu deveria cantar. Fiquei toda lisonjeada (e iludida) e achei que tinha uma voz fabulosa e que cantando eu seria um estouro.

Eis que uns dez anos mais tarde eu resolvi fazer aulas de canto. Eu gravava as aulas para praticar em casa e hoje me escutando tenho vontade de me atirar pela janela! Se me chamar de desafinada, vc ainda está sendo gentil! (E ainda dizem que qualquer pessoa pode cantar!)

Mas continuando a saga...

Foi no ano de 2000 que conheci Elizelle, lá nas praias do Paraná. A moça era de Sampa e eu estava me mudando exatamente para lá. Trocamos telefone e fiquei de telefonar quando minha mudança estivesse próxima.

Estava eu em Paranaguá no dia que resolvi ligar e obviamente eu estava resfriada e rouca. Não sei porque cargas d'água eu invento de telefonar para os outros quando estou rouca!

Quem atendeu foi o irmão dela:
- Alô
- Por gentileza, a Elizelle se encontra?
- E quem gostaria?
- É a Cristiane...
E começou a mesma ladaínha, onde ele dizia que eu era um homem, e eu insistia que não. A diferença é que ele ficou me aporrinhando por mais de três minutos, o que pareceu uma eternidade e eu pagando interurbano.

Eu tentava explicar que eu era do Paraná, que tinha conhecido a irmã dele na praia. Nada estava adiantando. Ele foi tão cansativo insistindo que era um homem que estava falando, que por várias vezes tive vontade de mandá-lo para aquele lugar, mas me controlei porque eu realmente queria falar com Elizelle.

Eu já cansada, disse: quer saber do que mais, se vc acha que é um homem, eu sou um homem, mas chama a Elizelle. Nem me lembro se dei algum nome masculino para satisfazer a vontade dele. (Eu deveria ter dito que o meu nome é Valdemar, assim como aquela personagem da novela Tieta!)

Quando finalmente Elizelle atendeu, conversamos bastante e somos amigas até hoje.

Minutos depois dessa chamada, toca o telefone lá em Paranaguá e eu atendi. Para minha surpresa era o irmão de Elizelle para me pedir desculpas. Disse que sentia muito e que eu fui muito educada, que se fosse ele no meu lugar, teria mandado ele para aquele lugar!

Nunca me esqueci dessa história, porque ele ficou muito sem jeito, principalmente no dia em que fui visitar Elizelle pela primeira vez. Mas rimos muito do acontecido. E como essa é uma história ótima para se contar, volta e meia eu a conto a alguém. Até que um dia o inacreditável aconteceu.

Eu já morando na Dinamarca, conheci uma menina de Curitiba que tinha vindo para uma reunião na empresa onde eu trabalhava. O pessoal perguntou se eu não queria levá-la para passear no domingo. Tudo bem.

Estamos passeando no castelo, ela conta que é originalmente de Sampa e quando a conversa engrena ela me conta um fato engraçado e eu retribuo contando essa minha história. Eis que ela me olha muito sério e diz que já tinha ouvido essa história antes. Eu, decerto fiquei pálida, disse que a pessoa da minha história é do bairro tal de São Paulo e ela me responde que ela morava no bairro vizinho dali e que tinha amizades no bairro tal. No final das contas descobrimos que ela também conhecia o irmão de Elizelle! Eta mundo que dá voltas esse!

Mas minha saga não acaba aqui. Aliás, nos meu último ano no Brasil, eu nem precisava estar rouca para ser chamada de senhor. Ligava para o provedor de internet, equipada somente com minha voz natural e é: Pois não senhor pra cá, como posso ajudá-lo senhor pra lá.

No início eu me dava o trabalho de corrigir a pessoa do outro lado da linha, dizendo que eu não era um homem. A pessoa ficava confusa e nunca entendia o que eu estava falando. Demorava uma eternidade explicando a confusão. E como esse inconveniente acontecia com frequência, com o tempo me cansei de corrigir as pessoas e deixava a conversa rolar com o cidadão do outro lado dizendo o tempo todo:

- se o senhor fizer esse pacote...
- mas o senhor não quer cancelar, veja essas vantagens...
Até que chegava o momento em que eles precisavam do meu nome para fechar o contrato:
- então preciso do seu nome completo, RG, etc
- Cristiane...
- como?
- Cris-ti-a-ne
- oh, me desculpe, e eu te chamando de senhor.
- deixa isso pra lá (já estou praticamente acostumada! rsrs)

E uma dessas últimas conversas foi cancelando o meu mastercard antes de me mudar para a Dinamarca.

Depois disso foi só alegria. Na Dinamarca a maioria das mulheres têm voz grossa (comparado com o padrão brasileiro de voz feminina). Não sei se é alguma coisa que eles colocam na água daqui ou se é o modo como eles usam o idioma. Já vi menina de uns 16 anos com a voz bem mais grossa que a minha.

Estou no paraíso dos vozeirões e aqui ninguém me chama de senhor!

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Modelo

(Setembro de 2004)

Numa dessas minhas maratonas para tirar as fotos de Copenhague, aconteceu algo inesperado.
Vou explicar.
Depois do trabalho, já de tardezinha, fui com o Carsten até o castelo da cervejaria Carlsberg para tirar fotos. Como o sol não estava ajudando, coloquei na minha cabeça que eu teria que acordar cedo e tirar as fotos enquanto o sol não estava tão forte.

Um belo dia, caí da cama antes das 7 horas, peguei o trem e fui fazer a minha sessão fotográfica. Ao sair da estação, um cidadão de bicicleta me parou. Veio com uma história de que era fotógrafo e que gostaria de usar a minha foto no seu álbum de apresentação. Conversa vai, conversa vem, ele me deu seu cartão e pediu para que eu telefonasse tanto se fosse para aceitar ou recusar o convite. Eu disse que ia pensar.
Depois disso, com o ego lá em cima, fui tirar as benditas fotos da Carlsberg, que não ficaram lá essas coisas.


Cartão

Pensei, pensei, pensei...
Até que não seria má idéia ter uma foto profissional pendurada na sala.
Me empenhei para contactar a polícia e perguntar se havia relato de algum maníaco se passando por fotógrafo. Não souberam me informar.
Conversando com uma colega de trabalho, ela disse que se eu quisesse ela iria comigo tirar as fotos e que achava difícil ter um maníaco de pé às 7 horas da manhã se passando por fotógrafo.
Desencanei e telefonei para o cara. Afinal, ele tinha pedido para telefonar tanto para dizer sim ou não.
Quando ele atendeu, eu disse quem era e ele com uma voz seca perguntou: “O que eu posso fazer por você?”
Achei estranho e comecei a gaguejar. Ele repetiu a mesmíssima frase.
Então pensei com meus botões: como assim, o que ele pode fazer por mim? Fui eu que fui atrás dele pedindo para tirar fotos minhas? Não.
Disse obrigado pelo convite e passar bem!
Cada um que aparece na vida da gente!

Foto eu não tirei, mas que é uma boa história para contar, é! E verídica!

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Moradia

Há quatro anos moramos em Copenhague. E há quem diga que morar na Europa é coisa de gente fina.

Gente fina? Nós é que sabemos. A realidade é outra.

Há quatro anos que moramos em um apartamento de 40 metros quadrados, um aperto e que não tem banheiro! Isso mesmo. Coisa de europeu chique. Banheiro pra quê? Pra que tomar banho?

E não é brincadeira. Quem veio nos visitar, sabe. A gente toma banho de bacia, na pia da cozinha.

Mas finalmente conseguimos economizar o suficiente para dar entrada numa casa e o banco aprovou o empréstimo.

Vamos nos mudar daqui a 11 dias!
A ansiedade é tanta que começamos a empacotar nossas coisas antes mesmo de fechar negócio.

11 dias... 1 hora e 32 minutos...
E como demora a passar!

 

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Um Gringo e 16 Anos

C & C
Cris e Carsten, eu no Brasil e ele na Dinamarca, a história de como nos conhecemos, a história do casamento e a entrevista para o maior jornal da Dinamarca.
Nossa foto foi parar na primeira página do jornal, entre a Madonna e o ex-primeiro ministro.

Carsten da Dinamarca e Cris do Brasil. Enquanto fomos casados as pessoas sempre nos perguntavam como foi que nós nos conhecemos, se tinha sido no Brasil. Minha resposta era sempre a mesma: Nós nos conhecemos através da Internet.
Nos dias de hoje isso é muito comum, pois há tantos dating sites, mas no ano 2000 a coisa era diferente. Naquela época não tinha nenhum programa bom para falar ou trocar vídeo. Se naquela época já existisse Skype, WhatsApp, Messenger, Facebook, nós teríamos economizado um dinheirão em contas telefônicas!


Naquela época nós usávamos um programa chamado ICQ
Nosso encontro foi assim:  

 

A versão do Carsten

Copenhague (DK), verão, domingo 11-junho-2000, 4 da manhã.

Eu tinha acabado de chegar em casa da festa de boas-vindas do meu novo vizinho. Estava checando e-mails antes de ir dormir, quando recebo uma mensagem pelo ICQ: "Olá, meu nome é Cristiane. Sou de São Paulo e eu gostaria de falar um pouco com você."

 

A versão de Cristiane

São Paulo (BR), inverno, sábado 10-junho-2000, 11:00 da noite.

Não tinha ninguém online aquela hora. A maioria do pessoal usava modem para se conectar à internet e era muito mais barato se conectar depois da meia-noite. Eu estava entediada. O programa ICQ tinha um botão chamado bate-papo aleatório. Eu sempre quis saber o que aconteceria se eu clicasse nele. Naquela noite eu decidi desvendar esse mistério. O programa encontrou algumas pessoas online e Carsten era uma delas. Lendo o perfil dele fiquei até chocada. Dizia assim: ‘Não me contacte para perguntar o meu nome, nem me contacte para perguntar minha idade. Leia minha informação no perfil. ‘

Eu deveria estar fora de mim quando decidi mandar uma mensagem para ele. Das duas pessoas que eu contactei, Carsten foi o único que respondeu. Ele escreveu: ‘E do que você quer falar?' (simpaticíssimo!)

Ele não queria ninguém perguntando seu nome ou idade, mas adivinhe o que eu acabei perguntando? Uns anos depois, fazendo uma limpa nos arquivos do computador, encontramos o chat inteiro daquela noite e pudemos relembar que minha resposta foi: ‘Você poderia começar me contando sobre você, seu nome, idade, o que gosta de fazer.'

O papo durou horas. Era a primeira vez que eu estava escrevendo em inglês num bate-papo e confesso que várias vezes tive que dar uma olhada no dicionário. Também era a primeira vez que estava conversando com alguém totalmente nerd e ele usava umas siglas que eu não sabia o que significavam. Coisas como LOL, BTW, BRB. Em inglês correspondem a ‘laugh out loud', ‘by the way' e ‘be right back'. Expressões que em português equivalem ao ‘risos', ‘à propósito' e ‘já volto'.

No meio dessa conversa agradável, Carsten me manda um pedido para adicioná-lo como amigo no ICQ. Na mensagem ele escreveu: Por que não?

No dia seguinte, quando me conectei, vi que ele estava online. O papo do dia anterior tinha sido tão animado, que quando o vi tive vontade de mandar um alô. No entanto eu não queria dar a impressão de estar carente, então ignorei a sua presença. Não demorou muito ele me mandou uma mensagem e foi ótimo conversar com ele novamente. Nós nos tornamos bons amigos e conversávamos frequentemente. Quando eu ouvia os sons de mensagem ou solicitação de chat do ICQ, já alegrava meu dia. Nos dias em que Carsten não estava online eu me sentia solitária.

Cupido bateu na nossa porta. Carsten me enviou um buquê enorme de rosas vermelhas. Elas foram entregues no meu trabalho. Quando eu cheguei de manhã para trabalhar, as rosas já estavam lá esperando por mim. Achei que esse acontecimento merecia uma foto, e após o expediente fui até o fotógrafo ali perto e perguntei se ele não tirava uma foto do meu buquê.

Carsten decidiu então vir ao Brasil em outubro para me conhecer pessoalmente e para comemorar o meu aniversário. Eu estava ansiosa para conhecê-lo. Dias antes da sua viagem Carsten brincou dizendo: "Você não tem medo? Você não sabe se eu sou um maníaco carregando um machado." Pronto. Aí sim eu fiquei preocupada.

O dia chegou e eu fui buscá-lo no aeroporto. Seu vôo estava atrasado. Duas horas de espera. Eu mantinha meus olhos no portão de desembarque e me perguntava se eu seria capaz de reconhecê-lo. Eu tinha essa idéia de que eu estaria ali na frente do portão e ele apareceria empurrando o carrinho com a bagagem. Nada aconteceu como eu tinha imaginado.

Depois de esperar por quase duas horas tive que ir ao banheiro. Obviamente Carsten saiu do portão exatamente naquele momento. Eu tinha dito que estaria esperando por ele do lado esquerdo. Como ele não me viu, continuou andando para o lado esquerdo. Ainda bem que os banheiros ficavam naquela direção. Quando eu estava voltando para o portão, no meio do caminho eu o reconheci, caminhando na minha direção.

Tudo estava diferente. Ele tinha aparado o cavanhaque bem curto e por causa disso seu semblante estava completamente diferente do que eu estava acostumada a ver através da câmera. Ele estava vestindo um terno escuro com uma camisa amarelo-mostarda abotoada até o colarinho. Extremamente formal. E ainda por cima ele não estava empurrando o carrinho com a bagagem como eu esperava, mas ele trazia a mala de rodinhas arrastada atrás de si. Oh meu Deus. Dizem que a primeira impressão é a que fica, mas felizmente existem exceções.

Carsten ficou por duas semanas. Era um feriadão e nós aproveitamos para visitar minha família no sul e fazer um passeio por Florianópolis. Duas semanas passaram num zás-trás. Ele voltou para a Dinamarca e de repente ficou mais difícil tolerar a distância. Então ele decidiu me visitar novamenten no natal.

Enquanto o natal não chegava nós estávamos tentando todo tipo de programa que nos permitia usar câmera e conversar um com o outro: ICQ, Netmeeting, Roger Wilco. Nada funcionava muito bem e acabávamos telefonando um para o outro. A conta telefônica era de matar. Teria sido tão bom se existisse Skype naquela época.

Carsten veio para o Natal e foi exatamente como antes. Foi tão bom que eu até perguntei se ele poderia mudar a passagem de volta para ficar uns dias mais. Infelizmente não foi possível. Então decidi que era a minha vez de visitá-lo, conhecer sua família e descobrir mais sobre sua vida.

Fui ao meu banco e pedi um empréstimo para comprar minha passagem. Quando eles me perguntaram como eu iria pagar de volta, eu fui obrigada a contar minha história. Disse que tinha conhecido Carsten pela internet e que se tudo transcorresse bem, que eu iria vender tudo o que tinha, pagar minha dívida e me mudar para a Dinamarca. Dentro do banco fiquei famosa. O pessoal adorou a história. Acharam romântico e me deram o empréstimo.

Março de 2001. Passei três semanas na Dinamarca. Copenhague é uma cidade muito bonita e tudo era tão diferente. Eu conheci a família de Carsten e eles me trataram muito bem. Também conheci alguns amigos mais próximos do Carsten e tive a oportunidade de ver neve pela primeira vez na minha vida! Depois de 3 semanas, a partida não foi fácil.

De volta a São Paulo, no táxi a caminho do meu apartamento eu olhava tudo ao meu redor e não pude deixar de comparar a cidade com o que tinha acabado de ver em Copenhague. São Paulo é suja, feia, poluída, violenta e corrompida. Perguntei-me então o que me mantia ali. São Paulo para mim significava liberdade e desafios e eu adorava isso. Por outro lado também estava disposta a desistir de tudo para tentar um relacionamento com Carsten. E foi o que fiz. Vendi tudo que eu tinha, paguei o banco, pedi demissão, entreguei o apartamento e Carsten veio me buscar em junho. Nós nos despedimos de todos e daquele momento em diante era ‘Dinamarca, aqui vou eu.'

pictures of the paperNos casamos em outubro no castelo da prefeitura de Copenhague, onde o cartório de registro civil fica localizado. Curiosamente naquele mesmo dia havia um jornalista lá, do Berlingske Tidende, o jornal mais antigo da Dinamarca e um dos maiores jornais daqui. Ele estava colecionando histórias para o seu próximo artigo: Uma matéria sobre casais que tinham decidido se casar somente no civil, mas não na igreja.

Contamos nossa história para ele, de como havíamos nos conhecido e que somente minha mãe tinha vindo para o casamento aqui do outro lado do oceano. Ele ficou tão empolgado com o que contamos que entrevistou até a mãe do Carsten. Nossa história valeu uma foto grande na página do artigo. No dia em que o artigo foi publicado recebemos um torpedo dizendo que nós estávamos no jornal. O jornal de domingo é gigante. Pensei que encontrar nossa foto ali seria como procurar uma agulha no palheiro. Chegamos na banca e ficamos surpresos. Nossa foto estava na primeira página! Bem no topo e centralizado entre a Madonna e o ex-primeiro ministro dinamarquês. Somos famosos, você não sabia ? :-) E nós ficamos juntos por 16 anos. Eu culpo a internet!

 

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